O alerta foi lançado pela Associação Nacional de Contratados do Exército (ANCE), que acusa o Governo de não prestar o devido apoio à reintegração social dos militares que terminam o contrato nas Forças Armadas, deixando-os “ao abandono”. “Para qualquer militar, não existe um gabinete de apoio para reclassificação profissional e procura activa de emprego”, sublinhou ao CM Rosalino Soares, presidente da ANCE, que responsabiliza o Governo pela situação difícil em que se encontram muitos ex-militares.
No desemprego e sem apoio estatal, mas com importantes conhecimentos na arte da guerra, os ex-militares ficam assim na mira das organizações de mercenários e outros grupos de subversão. “Todos os militares em regime de contrato aprendem, no mínimo, a utilizar o mais diverso tipo de armamento e tácticas de combate”, salientou Rosalino Soares, que alertou para o facto de, tal como nos EUA, já existirem empresas de recrutamento de mercenários a actuar em Portugal.
“Por falta de interesse e responsabilidade do Ministério da Defesa, ninguém sabe que tipo de saídas profissionais estão a ter os ex-militares, ou não, quem os contacta e para quê”, referiu o presidente da ANCE. E acrescentou: “Há organizações terroristas que passam por Portugal, basta lembrarem-se de começar a recrutar estes militares em situações precárias...”. “A irresponsabilidade é de tal ordem que só quando acontecer algo de grave é que vão tomar medidas”, rematou. Contactado há vários dias pelo CM, o Ministério da Defesa não fez qualquer comentário ao assunto.
Rui Afonso, de 33 anos, foi forçado a sair do Exército há cinco anos após uma lesão num exercício. Sem emprego e apoio estatal, o ex-alferes de Operações Especiais optou por tirar um curso de formadores e hoje oferece, através de um anúncio na internet, formação nas mais diversas áreas da arte da guerra. “Temos de fazer pela vida”, justificou ao CM Rui Afonso, que afirma sentir-se “enganado” pelas Forças Armadas, por não lhe ter sido prestado qualquer apoio.
Disponível para oferecer os seus serviços a quem os quiser adquirir, Rui Afonso disse que, apenas duas semanas após ter publicado o anúncio, já foi contactado por privados para dar formação de tiro.
"É UM PERIGO E DEVIAM SER ACOMPANHADOS"
A contratação de ex-militares especialistas, nomeadamente de Operações Especiais, por parte de organizações terroristas “é possível e é um perigo”, disse ao Correio da Manhã o general Garcia Leandro, presidente da direcção do Observatório de Segurança e Terrorismo.
De acordo com o ex-director do Instituto de Defesa Nacional, esses ex-militares que estão a oferecer os seus serviços “deviam ser devidamente acompanhados no futuro” pelos poderes públicos. O general sublinhou, no entanto, que o observatório “não tem informação nenhuma a este respeito”, quer dizer, não tem informação e conhecimento de casos. Mas, acrescenta o general, “em termos teóricos é compreensível que esses militares de Operações Especiais estejam a oferecer os seus serviços, como é o caso de muitos americanos e ingleses”. Lembra, por exemplo, as empresas de segurança que estão a contratar antigos militares para o Iraque.
"RISCO POTENCIAL"
O presidente da Associação Nacional de Sargentos, António Lima Coelho, considerou que a contratação de ex-militares em situação precária por grupos terroristas é um “risco potencial, que temos de saber travar”. A solução, segundo apontou, é o “cumprimento do regime de incentivos”. “Não basta criar leis bonitas, é preciso cumpri--las”, defendeu Lima Coelho, que garante que são “muitos os casos de ex-militares em dificuldade”.
MULHERES TAMBÉM SE QUEIXAM
O problema dos militares em regime de contrato que passam à disponibilidade também afecta as mulheres. É o caso da ex-tenente Alexandra Paiva Amaral, que estava grávida de 6 meses quando terminou o contrato, mas não teve direito a receber o subsídio de maternidade. “É injusto que qualquer militar que cumpriu integralmente as regras do serviço militar, ali trabalhando e descontando durante 9 anos, não venha a ter direito ao subsistema de protecção familiar e à maternidade e paternidade”, afirmou a ex-tenente.
TESTEMUNHO
Eu, Alferes RC de Operações Especiais do Exército Português, NIM: 38430392, Rui Afonso, na situação de Reserva de Disponibilidade, venho publicamente agradecer à ANCE – Associação Nacional de Contratados do Exército por todo o apoio e aconselhamento prestado, aquando da minha saída ILEGAL do Exército, quando me encontrava de baixa médica devido a cirurgia no joelho esquerdo e lesionado permanentemente na referida região articular, ao serviço da Pátria, sem que após 5 anos de luta alguém das Forças Armadas tenha solucionado a minha situação, depois de tantas exposições, reclamações, telefonemas e reuniões de trabalho na DGPRM, sempre acompanhado pela ANCE, as últimas dirigidas ao próprio Exmo Sr. Ministro da Defesa Nacional, Casa Militar da Presidência da República, grupos Parlamentares da AR, bem como alguma Comunicação Social, e apesar das boas indicações, até à data nada de concreto.
A minha revolta foi grande e o sentimento de vingança enorme, atenuado apenas por sentir que no meio desta hipocrisia institucional, repleta de funcionários públicos incompetentes e de políticos mercenários, existiu, existe e existirá sempre uma ANCE para apoiar os militares que são descartados por um Exército, até sem papel activo na sociedade; na sua reintegração na vida civil, pois por estar debilitado fisicamente, nem direito tive ao subsídio de desemprego, não estava apto para o trabalho perante a Segurança Social e o Centro de Emprego.
Actualmente sou uma mais-valia desaproveitada pelas Forças Armadas do meu País, devido ao conhecimento técnico de diversas especialidades subjacentes às Operações Especiais que possuo, desenvolvido durante a minha prestação de serviço militar, que considero perigoso, até se este tipo de informação cair em mãos erradas, agora que se fala tanto de terrorismo, e mais uma vez pude contar com a ANCE, que me ajudou a refazer o meu currículo profissional, porque da forma que estava só servia mesmo para entregar no recrutamento de uma qualquer força terrorista internacional. São estes milhares de militares que todos os anos são desaproveitados por quem ainda não despertou para a realidade de um futuro que poderia ser bem melhor, mas que se avizinha muito negro para as gerações do presente e vindouras.
Sempre com esperança num futuro melhor para todos os militares RV-RC, OBRIGADO ANCE, por existires!
O ANÚNCIO
Exmos/as Srs-Sras Empresários-as, Instituições e Organizações,
Venho colocar os meus serviços técnicos de formador certificado (CAP nº EDF 402921/2006 DL, válido até 2011-03-26) à disposição de V. Exas, na prestação de serviço, nas seguintes áreas, conforme definidas no respectivo perfil profissional:
1) Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho;
2) Primeiros Socorros;
3) Módulos de Operações Especiais:
- Técnicas de Montanhismo: Escalada, Rappel, Slide, Ventral, Funicular, Teleférico.
- Técnicas de Socorrismo, Evacuação e Transporte de Feridos.
- Estudo de Informações sobre Áreas/Zonas para Planeamento Diverso.
- Operações Aerotransportadas em Allouete e Puma: Rappel, Corda Rápida, Salto Terrestre e Aquático, STABO, SPIE.
- Operações Anfíbias: Fluviais e Marítimas.
- Armamento, Tiro e Fogos Reais.
- Transmissões/Comunicações.
- Topografia, Fotografia Aérea e Sistemas Operativos de Navegação via – GPS.
- NBQ – Nuclear, Biológico e Químico.
- Sapadores: Explosivos, Minas e Armadilhas.
- Informação e Contra-Informação: Prisioneiros de Guerra, Interrogatórios, Resistência, Técnicas de Fuga e Evasão, Observação e Relatos.
- Técnicas de Sobrevivência.
- Técnica e Táctica Geral de Operações Especiais: Técnica de Combate, Combate em Áreas Edificadas, Pistagem e Contra-Pistagem.
- Operações Especiais de Acção Directa: Patrulhas, Acções de Reconhecimento e Vigilância de Áreas/Zonas, Observação e Escuta, Golpe de Mão, Emboscada, Flagelação, Sabotagem.
- Operações Especiais de Acção Indirecta: Técnicas e Tácticas do GOE, Comando e Organização de Áreas em Operações Não Convencionais.
- Operações Psicológicas: Planos de Acção Psicológica, Técnicas e Meios de Comunicação, Propaganda-Difusão, Execução de Conferência de Imprensa.
- Guerra Subversiva: Técnicas e Táctica de Guerrilha, Comando de Acções de Guerrilha Urbana, Comando de Unidades na Execução de Sequestro, Recrutamento, Organização, Instrução e Comando de Força Irregular, Técnicas de Resistência, Técnicas de Clandestinidade.
- Contra-Subversão: Detecção e Neutralização de Elementos de Redes Clandestinas, Controlo da População, Rebater Ideologias do Inimigo, Captura do Inimigo e Protecção de Pessoas, Instituições e Serviços.
Aproveito para informar V. Exas que a minha experiência profissional a nível da Formação Técnica (Formador/Instrutor de diversas Especialidades/Cursos Militares) é de 3 anos e 4 meses, desenvolvida no Centro de Instrução de Operações Especiais, em Lamego, encontrando-me, desde Março de 2006 e até à data, a desempenhar as funções de Formador, nas áreas da SHST e dos Primeiros Socorros, em vários Centros de Formação e Empresas.
- Grupos até 12 formandos (máximo).
- Material Pedagógico: Elaboração de manuais técnicos, filmes temáticos e computador portátil.
NOTA: Nos módulos de Operações Especiais, os planos das acções de formação são específicos por unidade temática. NÃO EXISTE QUALQUER TIPO DE ACORDO DE CONFIDENCIALIDADE ENTRE O FORMADOR E O EXÉRCITO PORTUGUÊS, "PODENDO O INTERESSADO GOZAR DE TODAS AS REGALIAS QUE LEGALMENTE LHE PERTENCEREM" (Diploma COE-CFO n.º 012/99, do Centro de Instrução de Operações Especiais do Exército, em Lamego, Portugal).
DISCURSO DIRECTO
"Sinto-me enganado, contribui com o meu esforço e a meio do jogo mudaram as regras"
Rui Afonso, ex-militar
"Só quando acontecer algo de grave é que vão tomar medidas"
Rosalino Soares
"Ainda não é uma realidade mas é um risco potencial. Temos de saber travar"
Lima Coelho
"Em termos teóricos é possível que esses militares estejam a oferecer os seus serviços"
Gen. Garcia Leandro
40 MIL MILITARES
Existem cerca de 40 mil efectivos nas Forças Armadas: 10 500 na Marinha, quase 22 mil no Exército e 7500 na Força Aérea.
1057 MILHÕES COM PESSOAS
O Ministério da Defesa orçamentou cerca de 1057 milhões de euros para despesas de pessoal nas Forças Armadas em 2007.
AUSÊNCIA DE FORMAÇÃO
Associações militares acusam Governo de não garantir formação aos jovens contratos, de forma a terem emprego quando saem da tropa.
MERCENÁRIOS NA GUERRA DO IRAQUE
O número de mercenários no Iraque já é maior do que as tropas de combate dos Estados Unidos. Os mais de 180 mil civis que trabalham no Iraque fora do comando militar são pagos pelos contribuintes americanos.
- Tropas dos EUA no Iraque – 160 000
- Custo anual por soldado – 120 000 dólares
- Contratos arquivados:
- Americanos – 21 000
- Iraquianos – 118 000
- Outras nacionalidades – 43 000
- Total – 182 000
- Seguranças privados – 48 000
Reportagem Original
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